A realização da Copa do Mundo tem ampliado a discussão sobre o crescimento das apostas esportivas no Brasil. Enquanto milhões de torcedores acompanham os jogos, especialistas e autoridades demonstram preocupação com o aumento da publicidade das chamadas "bets" e os possíveis impactos sobre a saúde mental e o endividamento da população.
Durante o torneio, a divulgação das plataformas de apostas ganhou ainda mais espaço nas transmissões esportivas, redes sociais e conteúdos produzidos por influenciadores digitais. A estratégia tem sido alvo de críticas por incentivar as apostas como parte da experiência de assistir às partidas.
Um dos casos de maior repercussão envolve a CazéTV, que passou a ser questionada pelo formato das inserções publicitárias realizadas durante as transmissões da Copa. As críticas se concentraram na divulgação de palpites e probabilidades em tempo real por narradores e comentaristas, em uma abordagem considerada excessivamente descontraída.
O caso chegou ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que abriu representações e recomendou a suspensão de anúncios considerados irregulares. Após a repercussão, a empresa informou que adotou mudanças nos protocolos de ativações comerciais durante as transmissões.
O debate também alcançou o governo federal e o Ministério da Justiça, que discutem medidas para reforçar as regras de publicidade das empresas de apostas, especialmente durante grandes eventos esportivos.
Saúde mental preocupa especialistas
A psiquiatra Maria Amália Pedrosa, do Hospital Sírio-Libanês e especialista no tratamento de dependências comportamentais e químicas, afirma que a Copa do Mundo apenas ampliou a visibilidade de um problema que já vinha crescendo no país.
Segundo ela, a combinação entre a emoção provocada pelos jogos e a promessa de ganhos financeiros rápidos torna as apostas mais atrativas e pode favorecer o desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
A médica explica que o mecanismo das apostas ativa o sistema de recompensa do cérebro de forma semelhante ao observado em outras dependências.
"O jogo pode desencadear um ciclo de perdas, tentativas de recuperação e perda de controle, com critérios semelhantes aos que observamos em dependências relacionadas ao álcool, cocaína e nicotina", destaca a especialista.
Cresce o risco entre novos apostadores
Além das pessoas que já apresentam vulnerabilidade à dependência, especialistas alertam que a ampla exposição à publicidade também pode atrair novos públicos, que passam a enxergar as apostas como uma forma simples de entretenimento ou de obtenção de renda.
Diante desse cenário, cresce a pressão por regras mais rígidas para a publicidade das casas de apostas e por campanhas de conscientização sobre os riscos associados ao jogo compulsivo.