Supremo julga nesta quinta se pais podem educar filhos em casa
Prática conhecida como \"homeschooling\" chegou a ser identificada em 7,5 famílias
Publicado em 29 de agosto de 2018
H sete anos, a dona de casa Sharol Werneck Gomes educa os filhos, que hoje tm 10 e 8 anos, em casa. A experincia comeou com a filha que, quando tinha 4 anos e meio, foi alfabetizada em casa. "Eu optei, em princpio, porque achei interessante ter essa opo de educar meus filhos em casa", conta. A filha chegou a ir para a escola, mas a experincia no foi boa, o que fez com que Sharol tivesse mais certeza do caminho escolhido inicialmente. "A professora gritava muito na sala de aula. Como estava adiantada, minha filha foi colocada como monitora, trouxe um peso sobre ela, que no tinha maturidade para lidar com essa situao. Ento, ela ficou bem desgastada. E a professora ainda colocou para ajudar coleguinhas, que implicavam muito com ela. Era bem ruim, ela chorava todos os dias", diz.
O filho, mais novo, nem chegou a frequentar as salas de aula. Sharol, que no passou por nenhuma capacitao formal para dar aulas, diz que est constantemente pesquisando e lendo sobre os melhores mtodos. "Eu pesquiso a base curricular para saber mais ou menos o que preciso ensinar, uso como um norte, mas no fico presa a ela no". Atualmente, ela e o marido coordenam um grupo de apoio para educao familiar em Cascavel (PR), do qual participam 30 famlias.
O nmero de famlias que optam pela educao em casa, prtica conhecida como homeschooling, cresce a cada ano no Brasil, de acordo com Associao Nacional de Educao Domiciliar (Aned). Em 2018 chegou a 7,5 mil famlias, mais que o dobro das 3,2 mil famlias identificadas em 2016. A estimativa de que hoje 15 mil crianas recebam educao domiciliar. O homeschooling, no entanto, no regulamentado no pas. Um julgamento marcado para esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF) deve trazer tona uma longa disputa entre pais que desejam educar seus filhos em casa e o Poder Pblico, que diz que a Constituio obriga a matrcula e a frequncia das crianas em uma escola.
Desde 2015 o assunto aguarda julgamento pelo Supremo, que deve definir um entendimento nico para todos os casos desse tipo que tramitam na Justia brasileira, estabelecendo o que o tribunal chama de tese de repercusso geral.
Ao
O caso que ser julgado em plenrio e servir de parmetro para os demais foi levado ao Supremo pelo microempresrio Moiss Dias e sua mulher, Neridiana Dias. Em 2011, o casal decidiu tirar sua filha de 11 anos da escola pblica em que estudava no municpio de Canela (RS), a aproximadamente 110 km de Porto Alegre, e passar a educ-la por conta prpria. Eles alegaram que a metodologia da escola municipal no era adequada por misturar na mesma sala alunos de diferentes sries e idades, fugindo do que consideravam um "critrio ideal de sociabilidade".
O casal disse que queria afastar sua filha de uma educao sexual antecipada por influncia do convvio com colegas mais velhos. Outro argumento foi o de que a famlia, por ser crist, acredita no criacionismo - crena segundo a qual o homem foi criado por Deus sua semelhana - e por isso "no aceita vivel ou crvel que os homens tenham evoludo de um macaco, como insiste a Teoria Evolucionista [de Charles Darwin]", que ensinada na escola.
Em resposta, a famlia recebeu um comunicado da Secretaria de Educao de Canela ordenando a "imediata matrcula" da menina em uma escola. O Conselho Municipal de Educao tambm deu parecer contra o ensino domiciliar, "por considerar que o mesmo no se encontra regulamentado no Brasil". O casal recorreu Justia, mas teve negado um mandado de segurana em primeira e segunda instncias.
Em sua sentena, o juiz Franklin de Oliveira Neto, titular da Comarca de Canela, escreveu que a escola "ambiente de socializao essencial" e que privar uma criana do contato com as demais prejudica sua capacidade de convvio. "O mundo no feito de iguais", escreveu o juiz. "Uma criana que venha a ser privada desse contato possivelmente ter dificuldades de aceitar o que lhe diferente. No ter tolerncia com pensamentos e condutas distintos dos seus". O caso seguiu at chegar ao STF, onde relatado pelo ministro Lus Roberto Barroso.
Posicionamentos contrrios
Provocada, a Advocacia-Geral da Unio (AGU) disse que as normas brasileiras estabelecem que a educao deve ser oferecida gratuita e obrigatoriamente pelo Poder Pblico. " muito importante destacar que a escola possibilita um aprendizado muito mais amplo que aquele que poderia ser proporcionado pelos pais, no mbito domiciliar, por maiores que sejam os esforos envidados pela famlia. Isso porque ela prepara o indivduo para situaes com as quais inevitavelmente haver de conviver fora do seio familiar, alm de qualific-lo para o trabalho", diz a AGU.
Para a instituio, por mais diferentes que sejam os membros de uma famlia, nenhum ncleo familiar ser capaz de propiciar criana ou ao adolescente o convvio com tamanha diversidade cultural, como prprio dos ambientes escolares. "Sendo assim. a escola indispensvel para o pleno exerccio da cidadania", acrescenta. A Procuradoria-Geral da Repblica tambm se manifestou, concluindo: "a utilizao de instrumentos e mtodos de ensino domiciliar para crianas e adolescentes em idade escolar. em substituio educao em estabelecimentos escolares, por opo dos pais ou responsveis, no encontra fundamento prprio na Constituio Federal".
H oito anos, o Conselho Nacional de Educao (CNE) emitiu um parecer orientando que as crianas e os adolescentes sejam matriculados em escolas devidamente autorizadas. O CNE tambm entende que a legislao vigente enfatiza "a importncia da troca de experincias, do exerccio da tolerncia recproca, no sob o controle dos pais, mas no convvio das salas de aula, dos corredores escolares, dos espaos de recreio, nas excurses em grupo fora da escola, na organizao de atividades esportivas, literrias ou de sociabilidade, que demandam mais que os irmos apenas, para que reproduzam a sociedade, onde a cidadania ser exercida".
Educao individualizada
Quem a favor do homeschooling argumenta, entre outras questes, que a educao em casa garante o direito dignidade e ao respeito, assegurando uma educao mais individualizada e, portanto, mais efetiva. "Mesmo nas melhores escolas, a educao necessariamente provida de forma massificada, sem atentar para as necessidades especficas de cada criana e sem prover a elas as tcnicas, os instrumentos e as metodologias do ensino-aprendizagem mais adequadas e qualificadas ao tempo presente", diz a Aned.
"Estamos buscando a autonomia educacional da famlia, no somos antiescola, no estamos lutando contra escola, apenas somos a famlia buscando uma nova opo que, no nosso entender, melhor para o nosso filho", diz o presidente da Aned, Rick Dias. Ele conta que tirou os filhos da escola h oito anos, quando a mais velha tinha 12 anos e o mais novo, 9. Atualmente, a mais velha cursa relaes internacionais em uma universidade particular. "No cremos que o Estado deva definir como devemos educar nossos filhos".
O filho, mais novo, nem chegou a frequentar as salas de aula. Sharol, que no passou por nenhuma capacitao formal para dar aulas, diz que est constantemente pesquisando e lendo sobre os melhores mtodos. "Eu pesquiso a base curricular para saber mais ou menos o que preciso ensinar, uso como um norte, mas no fico presa a ela no". Atualmente, ela e o marido coordenam um grupo de apoio para educao familiar em Cascavel (PR), do qual participam 30 famlias.
O nmero de famlias que optam pela educao em casa, prtica conhecida como homeschooling, cresce a cada ano no Brasil, de acordo com Associao Nacional de Educao Domiciliar (Aned). Em 2018 chegou a 7,5 mil famlias, mais que o dobro das 3,2 mil famlias identificadas em 2016. A estimativa de que hoje 15 mil crianas recebam educao domiciliar. O homeschooling, no entanto, no regulamentado no pas. Um julgamento marcado para esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF) deve trazer tona uma longa disputa entre pais que desejam educar seus filhos em casa e o Poder Pblico, que diz que a Constituio obriga a matrcula e a frequncia das crianas em uma escola.
Desde 2015 o assunto aguarda julgamento pelo Supremo, que deve definir um entendimento nico para todos os casos desse tipo que tramitam na Justia brasileira, estabelecendo o que o tribunal chama de tese de repercusso geral.
Ao
O caso que ser julgado em plenrio e servir de parmetro para os demais foi levado ao Supremo pelo microempresrio Moiss Dias e sua mulher, Neridiana Dias. Em 2011, o casal decidiu tirar sua filha de 11 anos da escola pblica em que estudava no municpio de Canela (RS), a aproximadamente 110 km de Porto Alegre, e passar a educ-la por conta prpria. Eles alegaram que a metodologia da escola municipal no era adequada por misturar na mesma sala alunos de diferentes sries e idades, fugindo do que consideravam um "critrio ideal de sociabilidade".
O casal disse que queria afastar sua filha de uma educao sexual antecipada por influncia do convvio com colegas mais velhos. Outro argumento foi o de que a famlia, por ser crist, acredita no criacionismo - crena segundo a qual o homem foi criado por Deus sua semelhana - e por isso "no aceita vivel ou crvel que os homens tenham evoludo de um macaco, como insiste a Teoria Evolucionista [de Charles Darwin]", que ensinada na escola.
Em resposta, a famlia recebeu um comunicado da Secretaria de Educao de Canela ordenando a "imediata matrcula" da menina em uma escola. O Conselho Municipal de Educao tambm deu parecer contra o ensino domiciliar, "por considerar que o mesmo no se encontra regulamentado no Brasil". O casal recorreu Justia, mas teve negado um mandado de segurana em primeira e segunda instncias.
Em sua sentena, o juiz Franklin de Oliveira Neto, titular da Comarca de Canela, escreveu que a escola "ambiente de socializao essencial" e que privar uma criana do contato com as demais prejudica sua capacidade de convvio. "O mundo no feito de iguais", escreveu o juiz. "Uma criana que venha a ser privada desse contato possivelmente ter dificuldades de aceitar o que lhe diferente. No ter tolerncia com pensamentos e condutas distintos dos seus". O caso seguiu at chegar ao STF, onde relatado pelo ministro Lus Roberto Barroso.
Posicionamentos contrrios
Provocada, a Advocacia-Geral da Unio (AGU) disse que as normas brasileiras estabelecem que a educao deve ser oferecida gratuita e obrigatoriamente pelo Poder Pblico. " muito importante destacar que a escola possibilita um aprendizado muito mais amplo que aquele que poderia ser proporcionado pelos pais, no mbito domiciliar, por maiores que sejam os esforos envidados pela famlia. Isso porque ela prepara o indivduo para situaes com as quais inevitavelmente haver de conviver fora do seio familiar, alm de qualific-lo para o trabalho", diz a AGU.
Para a instituio, por mais diferentes que sejam os membros de uma famlia, nenhum ncleo familiar ser capaz de propiciar criana ou ao adolescente o convvio com tamanha diversidade cultural, como prprio dos ambientes escolares. "Sendo assim. a escola indispensvel para o pleno exerccio da cidadania", acrescenta. A Procuradoria-Geral da Repblica tambm se manifestou, concluindo: "a utilizao de instrumentos e mtodos de ensino domiciliar para crianas e adolescentes em idade escolar. em substituio educao em estabelecimentos escolares, por opo dos pais ou responsveis, no encontra fundamento prprio na Constituio Federal".
H oito anos, o Conselho Nacional de Educao (CNE) emitiu um parecer orientando que as crianas e os adolescentes sejam matriculados em escolas devidamente autorizadas. O CNE tambm entende que a legislao vigente enfatiza "a importncia da troca de experincias, do exerccio da tolerncia recproca, no sob o controle dos pais, mas no convvio das salas de aula, dos corredores escolares, dos espaos de recreio, nas excurses em grupo fora da escola, na organizao de atividades esportivas, literrias ou de sociabilidade, que demandam mais que os irmos apenas, para que reproduzam a sociedade, onde a cidadania ser exercida".
Educao individualizada
Quem a favor do homeschooling argumenta, entre outras questes, que a educao em casa garante o direito dignidade e ao respeito, assegurando uma educao mais individualizada e, portanto, mais efetiva. "Mesmo nas melhores escolas, a educao necessariamente provida de forma massificada, sem atentar para as necessidades especficas de cada criana e sem prover a elas as tcnicas, os instrumentos e as metodologias do ensino-aprendizagem mais adequadas e qualificadas ao tempo presente", diz a Aned.
"Estamos buscando a autonomia educacional da famlia, no somos antiescola, no estamos lutando contra escola, apenas somos a famlia buscando uma nova opo que, no nosso entender, melhor para o nosso filho", diz o presidente da Aned, Rick Dias. Ele conta que tirou os filhos da escola h oito anos, quando a mais velha tinha 12 anos e o mais novo, 9. Atualmente, a mais velha cursa relaes internacionais em uma universidade particular. "No cremos que o Estado deva definir como devemos educar nossos filhos".
Fonte: Bruna Casali / JornalismoBarrilFM com informações CP
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